A caminho de um exame, a descoberta pela paixão de dirigir táxis

No início da década de 90, há exatos 23 anos, Alba Valéria de Souza Rosa era uma dona de casa dedicada, grávida, então, do segundo filho e esposa de um taxista. No início da gravidez, Alba precisava faze um exame, mas o marido não podia acompanhá-la.  Ela resolveu pegar o táxi do esposo e dirigir até a clínica. No meio do caminho, porém, um homem quase se atirou na frente do carro, pedindo desesperadamente que ela o levasse em uma reunião no Centro da cidade.

“Eu expliquei que não era taxista, que estava dirigindo o carro do meu marido, mas chovia e ele implorou que eu o levasse, pois estava muito atrasado para uma reunião e não havia táxi disponível”, conta Alba.

Após deixar o passageiro acidental, Alba não conseguiu se dirigir ao exame, passou o dia inteiro transportando outros passageiros. Ao chegar em casa, falou para o marido que, daquele dia em diante, dividiria o trabalho no táxi com ele.

“Trabalhei até o 8º mês de gravidez e nunca mais parei. Anos depois, já com três filhos, resolvi me separar, comprei apartamento e eduquei meus filhos, hoje todos fazem faculdade pública. Tudo isso graças à renda do táxi”, afirma orgulhosa Alba.

O bebê que Alba carregava quando pegou o táxi pela primeira vez hoje é um rapaz de 23 anos. Yohan Wallace de Souza Rosa cursa Direito na UERJ, faz estágio em uma instituição do Governo, mas descobriu aos 18 anos a responsabilidade de guiar um táxi. Os irmãos Johnatan, de 26 anos, que está se formando em engenharia com especialização de Petróleo e Gás, e o caçula, Juan, de 22 anos, também aluno do curso de Direito da UERJ, passaram pelo volante do táxi da família.

Lições de vida ao volante

“Condicionei a entrega da carteira de habilitação de cada um deles a um estágio no táxi. Acho importante que eles tenham consciência do que é o dia a dia de trabalho de um taxista. Eles tiraram a carteira de habilitação específica e as licenças, foram para a praça e aprenderam a lidar com os passageiros. Isso é importante para a formação deles, pessoal e profissional”, diz Alba.

Com mais de duas décadas de experiência ao volante, a taxista, que hoje trabalha ligada a uma cooperativa, prefere o turno da noite e nunca teve receio da violência. Também tem por lema a gentileza.

Gentileza, o principal serviço

“Sempre recebo o passageiro com cordialidade e já me acostumei aos diversos perfis. Não me importo se pessoa não quer conversar, coloco o rádio na emissora de preferência dela e sigo o caminho. Mas também me divirto muito com aqueles que preferem uma conversa animada”, comenta.

Sempre muito empolgada com o que faz, Alba lembra que já passou por situações em que seu perfil foi fundamental para reverter uma possível crise. Alba conta que uma vez estava em um bairro da Zona Norte carioca, quando uma mulher praticamente se jogou na frente do táxi.

“Quando ela entrou que havia uma expressão de sofrimento. Perguntei se ela queria conversar, ela começou a chorar, e  estacionei o carro. Ela tinha muitos problemas na família e disse que, naquele dia, pensou em fazer algo muito ruim, tamanho o desespero. Acabamos numa pizzaria, ela desabafou, ouvi os problemas dela, falei algumas palavras de conforto, e a expressão dela mudou. Ganhei o dia”, lembra.

A satisfação que Alba emana ao dirigir o táxi contagia, e não apenas os passageiros. Alba conta que as professoras de um dos filhos achavam graça das redações dele. Yohan escrevia contando as aventuras da mãe ao guiar o táxi.

Fonte: Ela – O GLOBO

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