Apesar de promessas, serviço de táxis ainda patina

Após enxurrada de reclamações de passageiros, prefeitura começa nesta quinta-feira a rever Código Disciplinar de taxistas

taxisimobilidade

RIO – Os táxis do Rio deixam a cabeça dos matemáticos, e de qualquer um que saiba fazer contas, em ponto de ebulição. Afinal, não há raciocínio lógico que dê conta do que se passa nas ruas da cidade: apesar de existirem 33 mil “amarelinhos” circulando, ou seja, um para cada 177 habitantes — de fazer inveja aos nova-iorquinos, obrigados a disputar um táxi com outras 666 pessoas —, a conta não fecha em algumas equações. Quando chove, por exemplo, os carros que se multiplicam no dia a dia, atravancando o trânsito, são quase todos subtraídos das ruas. Quando a variável é a hora do rush, outra encrenca: motoristas recusam determinadas corridas para não ficarem presos em engarrafamentos. Acostumados a uma fiscalização frouxa — mais preocupada em verificar a documentação e a validade de certificados de dedetização e apólices de seguro do que em garantir a qualidade do serviço prestado — os motoristas agem como bem entendem, como mostra a quinta reportagem da série “Imobilidade Urbana”.

Além de evaporarem quando as nuvens surgem no horizonte, motoristas costumam recusar corridas a determinados bairros e escolhem passageiros — idosos ou adultos com muitas crianças e mochilas a tiracolo não são bem-vistos. A fiscalização da Secretaria municipal de Transportes, que ficou muito tempo devagar quase parando, tomou fôlego a partir de dezembro passado, quando foi implantada a operação Táxi Legal, e, de lá para cá, vistoriou 8.963 táxis. Destes, 1.180 acabaram lacrados e 152 foram rebocados por estarem circulando em condições irregulares, o que inclui, além da falta de documentos, má conservação de pneus e lataria. Segundo o secretário Carlos Roberto Osório, foram abertos 34 processos de cassação de licenças por conta de cobrança no tiro, e 21 piratas foram apreendidos.

Punições são irrisórias

Os taxistas agem como querem porque, além da fiscalização incapaz de flagrar problemas impostos no dia a dia aos passageiros, são regidos por um Código Disciplinar antiquado, de 1970, que penaliza sem rigor, como mostrou uma série de reportagens do Globo a Mais em janeiro. A multa para quem se recusa a levar um passageiro é de apenas R$ 49,49, enquanto em São Paulo a punição é mais dura: R$ 114,10. No Rio, quem é mal-educado com o usuário pode ser multado em R$ 49,49. Já em Londres, recusar a quantidade de passageiros prevista para o veículo, ou mesmo malas, pode gerar multa de £ 1 mil (R$ 3,5 mil). A revisão do código estava prevista para 2014. No entanto, ontem Osório disse que a prefeitura decidiu antecipar a mudança:

— Amanhã (hoje) vai sair no Diário Oficial o anúncio de criação de uma comissão interdisciplinar para revisar o código. O novo deve estar pronto até o fim do ano e vai, além de ajudar a qualificar o taxista, estipular o padrão mínimo de veículo que queremos. A prefeitura reconhece que o serviço de táxis está longe do padrão que a cidade merece. É preciso qualificar o taxista — diz Osório, que até o fim de março bate o martelo sobre o fim, ou não, da película escura nos vidros de táxi, o insulfilm.

É preciso mesmo dar um banho de gentileza na categoria. A pouca amabilidade dos taxistas com os cariocas costuma se transformar em falta de civilidade total quando o passageiro tem sotaque pouco chiado: turistas, não raro, são persuadidos a ignorar o taxímetro e só conseguem entrar em carros que cobram “no tiro”. Isso acontece principalmente diante dos aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim, onde, em tese, passageiros que desembarcam podem escolher se preferem ser cobrados pelo taxímetro ou pela tabela da secretaria, recentemente revista, após a constatação que alguns trajetos fixos custavam muito mais do que pelo taxímetro. Uma corrida do Santos Dumont ao Cosme Velho, por exemplo, saía por R$ 35,50 e caiu para R$ 18. Nem sempre, é claro, as coisas acontecem como deveriam, mesmo após a revisão.

— Minha irmã veio de São Paulo, desembarcou no Santos Dumont e foi para Ipanema. Ela costuma pagar no máximo R$ 30, mas o taxista avisou, quando chegou, que a corrida custava R$ 75. Quando ela reclamou, ele mandou que chamasse a polícia. Logo depois, ela pegou um táxi e pediu para ir à Barra. O taxista olhou para trás e disse “se a senhora não fosse tão gata, eu não levava”, e passou a corrida toda cantando a minha irmã. Ficou uma hora e meia reclamando que “a senhora é muito difícil” e terminou convidando-a para fumar um baseado na praia. Ela ficou indignada — conta a advogada Carla Simas.

Mesmo os nascidos e criados no Rio enfrentam dissabores. Santa Teresa, uma espécie de Montmartre carioca, está, aos olhos dos taxistas, mais para Faixa de Gaza. Invocando o perigo, mesmo com favelas da região pacificadas, eles não sobem as ladeiras do bairro. Moradora da área prescrita pelos taxistas, a administradora Ana Luiza de Faria sempre pena quando quer conseguir um veículo para voltar para casa. Há pouco tempo, na Lapa, com uma amiga, parou seis carros. Nenhum deles quis levar as moças para Santa. No último, a solução foi apelar. A amiga de Ana Luiza ofereceu R$ 10 além do valor da corrida. O taxista acabou aceitando. Para evitar ficar novamente refém dos taxistas, a administradora hoje tem uma estratégia.

— Por causa da Lei Seca, não dirijo quando sei que vou beber. Mas, como não tenho como voltar de táxi, agora deixo meu carro estacionado na Glória, já perto de uma das subidas de Santa Teresa. Pego o táxi até a Glória e depois subo, não tem outro jeito — lamenta.

Especialistas defendem treinamento

Para especialistas, além da revisão, é necessário um treinamento intensivo, ainda mais agora, às vésperas da Copa.

— Muitos profissionais são pessoas que se aposentaram, perderam o emprego e foram parar no táxi. É preciso oferecer cursos de ética, direção defensiva, idiomas — diz José Eugênio Leal, professor da PUC-RJ.

Willian de Aquino, presidente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), bate na mesma tecla:

— O problema é o treinamento, os motoristas têm que ser mais cordatos. Em Londres, precisam saber centenas de rotas para ganhar a habilitação. Aqui, é delicado parar para treinar, já que muitos pagam diárias. A prefeitura deveria dar uma bolsa para os dias em que ficassem parados, estudando.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/apesar-de-promessas-servico-de-taxis-ainda-patina-7902245#ixzz2OBtN21yU
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Fonte: O Globo

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